Espaço de discussão e reflexão sobre a MEMÓRIA/TEMPO na construção do espetáculo de dança contemporânea "INPUT" da desCompanhia de dança. O projeto foi contemplado pelo Edital de Dança de Produção da Fundação Cultural de Curitiba e será estreado no dia 05 de Junho de 2014 no Teatro Kraide do Portão Cultural em Curitiba. Para maiores informações sobre a cia favor acessar o nosso blog www.descompanhia.blogspot.com

terça-feira, 4 de março de 2014

sobre a privacidade da memória

Para registrar no blog o link do filme que comentei no ensaio.
E se pudéssemos acessar nossas memórias tal qual elas realmente aconteceram?
Precisamos assistir juntos …
http://www.adorocinema.com/filmes/filme-52423/

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

alguns recortes de Bergson

Para dar início às minhas postagens neste novo blog, recorto alguns trechos do livro “Memória e Vida”, de Bergson. Lemos esse livro nas férias para iniciar uma aproximação teórica com as questões sobre o tempo e a memória e para voltar ao trabalho mais conectados com nosso projeto de pesquisa. Hoje, relendo estes trechos após duas semanas de trabalho prático e algumas refexões sobre o tema, vejo que minhas percepções sobre o que havia grifado também mudaram … como é da natureza misteriosa da memória: brincar com um presente preenchido de camadas e camadas de passados. Minha leitura instantaneamente atualizada possibilita novas e reveladoras conexões.

“A memória… não é uma faculdade de classificar recordações numa gaveta ou de inscrevê-las num registro. Não há registro, não há gaveta, não há aqui, propriamente falando, sequer uma faculdade, pois uma faculdade se exerce de forma intermitente, quando quer ou quando pode, ao passo que a acumulação do passado sobre o passado prossegue sem trégua. Na verdade, o passado se conserva por si mesmo, automaticamente. Inteiro, sem dúvida, ele nos segue a todo instante: o que sentimos, pensamos, quisemos desde nossa primeira infância está aí, debruçado sobre o presente que a ele irá se juntar, forçando a porta da consciência que gostaria de deixá-lo de fora”

“Com efeito, que somos, que é nosso caráter, senão a condensação da história que vivemos desde nosso nascimento, antes dele até, já que trazemos conosco disposições pré-natais? É certo que pensamos apenas com uma pequena parte de nosso passado; mas é com nosso passado inteiro, inclusive com nossa curvatura de alma original, que desejamos, queremos, agimos.”

“Trata-se de recuperar uma lembrança, de evocar um período de nossa história? Temos consciência de um ato sui generis pelo qual nos afastamos do presente para nos recolocarmos, primeiro no passado em geral e depois numa certa região do passado, trabalho de tenteios, análogo ao ajuste de um aparelho fotográfico. Mas nossa lembrança continua em estado virtual; dispomo-nos assim apenas a recebê-la adotando a atitude apropriada. Pouco a pouco, ela aparece como uma névoa que se condensasse; de virtual, passa ao estado atual; e, a medida que seus contornos vão se desenhando e sua superfície vai ganhando cor, tende a imitar a percepção. Mas permanece atada ao passado por suas raízes profundas, e se, depois de realizada, não se ressentisse de sua virtualidade original, se, ao mesmo tempo que um estado presente, não fosse algo que contrasta com o presente, nunca reconheceríamos como lembrança …”

“Assim nasce a ilusão de que a lembrança sucede a percepção. Mas essa ilusão tem outra fonte, ainda mais profunda. Provém de que a lembrança reavivada, consciente, causa em nós a impressão de ser a própria percepção ressuscitando sob uma forma mais modesta, e nada mais que essa percepção. Entre a percepção e a lembrança haveria uma diferença de intensidade ou de grau, mas não de natureza. (…) A lembrança de uma sensação é coisa capaz de sugerir essa sensação, ou seja, de fazê-la renascer, fraca primeiro, mais forte em seguida, cada vez mais forte à medida que a atenção se fixa mais nela.”

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Memórias que se fundem…

des, como tinha dito hoje no ensaio… memórias se fundem… o que aconteceu na real… o que eu completei nas lacunas vazias… Bom, segue uma reflexão minha sobre  lembranças do banheiro da minha infância. Yiuki

 

Paredes do banheiro

Quando eu era pequeno tinha um banheiro fora da casa, onde também era o nosso local de castigo.

Às vezes minha mãe encontrava-me sozinho nesse banheiro fazendo nada, sentado no assento tampado. Vendo a situação estranha, ela perguntava: – Filho, o que está fazendo ai? Diz ela que eu respondia: - Estou de castigo, pois fiz algo errado.

Vagas memórias que se fundem com os relatos da minha mãe.

Hoje penso que nem era triste, nem alegre aquele troninho da infância. Sabia que era somente um lugar para ficar, só isso.

Anos se passaram, sai de casa e pelas vicissitudes acabei me afastando dos meus pais. Não me sinto triste ou alegre quanto a isso, somente aprendi a ficar longe deles, pois algo dentro de mim fala que para ser filho, precisa cumprir algo como filho.

Ainda não cumpri o dever como filho, tão cedo não poderei cumprir o que geralmente as pessoas esperam de um filho.

Assim, tenho uma sensação de que preciso ficar no banheiro, uma sensação de que não mereço ser filho.

Busquei romper a filiação, deixei de telefonar e dar notícias, entrei no silêncio.

Meus pais deixaram de me telefonar, mas tempos em tempos, quando havia alguma oportunidade, minha mãe enviava-me algumas encomendas através dos meus irmãos.

Continuei a manter as paredes do banheiro, fiz para que eles desvinculassem de mim, achei que tinha conseguido.

Mas, semana passada, eu recebi mais uma encomenda através do meu irmão caçula, um pacote com comidinhas japonesas enviadas pela minha mãe, nela havia uma etiqueta escrita “Com carinho”.

Eles não desistiram... talvez nem vão desistir...

Quanto a mim, ainda não sei, talvez ser filho não é uma questão de merecer ou não...

Estou pensando em passar o Natal e Ano Novo na casa dos meus pais.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Vídeos de estação de trem do Adam Magyar

des, já viram esses vídeos do Adam Magyar? Muito legal. É engraçado quando algo causa estranhamento pela “aparente” não congruência com as leis da física. Cria-se um estado de atenção interessante para o espectador. Lembra que na cena da Varanda do IN-REAL acontecimentos poéticos, onde utilizo a contra-gravidade como convite ao estranhamento? Deslisar para tráz no corremão, saltar e grudar na janela, etc. Gosto desses recursos de tempo e espaço que cria um ar de surrealismo/onírico. Bom, compartilhando esse material somente como referência de vídeo. Bjsss.

LINK DOS VÍDEOS: http://www.hypeness.com.br/2014/02/ele-inventou-uma-nova-forma-de-filmar-pessoas-esperando-o-trem-o-resultado-vai-te-hipnotizar/

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Música “In the rowans / Balmorhea”

"des, gostei muito dessa música, na real o que chamou a atenção foi o som da máquina de escrever. Isso é forte para mim, essa questão da necessidade de escrever p´ra não perder a memória. A melodia da música é linda, mas somente essas batidas reverberando no corpo e no espaço já são intensas. Memórias batidas na carne de forma doce, rápida, pesada, agressiva, etc. Uma necessidade de encravar o som no corpo para firmar o “existido” que é importante para mim.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

O tempo é a verdade do homem - João Machado

DES, COMPARILHO O TEXTO SOBRE O TEMPO RETIRADO DA EXPOSIÇÃO DO “ATLAS” DO ARTISTA JOÃO MACHADO EXPOSTO NA CAIXA CULTURAL NO ANO 2013. GOSTEI DAS REFLEXÕES DELE E TINHA SEPARADO O PROGRAMA PARA COMPARTILHAR COM VOCÊS. YIUKI DOI

O tempo é a verdade do homem

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Quem me disse que “O tempo é a verdade do homem.” foi uma mulher de 90 anos. Me curvo perante essa frase sem saber exatamente o que ela quer dizer. Frases geralmente tem gosto, frases tem cheiro. Você gosta ou não gosta, julga, aceita, descarta, bota no bolso, como e digere. A verdade é que eu não consigo tocar nessa frase. Ela não me pertence e escapa por entre meus dedos como areia numa ampola.

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De tempo, conheço apenas aquele que dói, aquele tempo aonde as lembranças estão cristalizadas como esculturas no jardim da memória.
Um tempo de Cronos devorando seus filhos, que é o mesmo do Pacman perdido num labirinto fugindo de seus fantasmas.

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Preciso acreditar que existam outras maneiras de ver o tempo. Os japoneses têm um conceito chamado Wabi-Sabi que, entre suas premissas, sustenta a idéia de que tudo está vindo ou indo em direção ao nada. Uma flor que brota está saindo do nada enquanto uma flor que apodrece está se direcionando para esse mesmo nada. Mas o nada aqui não é o vazio da morte. O nada, nesse caso representa puro potencial. O tempo é aquilo que nos carrega de um potencial para outro.

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Ao contrário do tempo devorador de Saturno, esse tempo potencial é materno, pois nos faz nascer a cada instante com infinitas possibilidades de transformação.

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“O tempo é a Verdade do Homem” talvez não signifique que o tempo, tal como um cego justiceiro, irá desnudar as coisas até enfrentarmos algum tipo de julgamento final. Nada na natureza me faz pensar que seja assim. Acredito mais que “O Tempo é a Verdade do Homem” pois o tempo é movimento e é dele que se gerou tudo o que somos e conhecemos.

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O tempo somos nós.

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João Machado

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

EXPERIÊNCIA x CONCEITO

“No homem a experiência deriva da memória. De fato, muitas recordações do mesmo objeto chegam a constituir uma experiência única.” (Aristóteles)*.
As próprias percepções possuem memórias: Memória gustativa, olfativa, tátil, visual e auditiva. Todas as experiências são memórias. Mas quando as experiências do passado criam juízos que atrapalham as nossas percepções inéditas? Em que momento esses mesmos juízos ajudam-nos a compreender melhor o nosso entorno?
De um lado, encontro o corpo que se manifesta no hábito dentro do mundo conhecido - são os movimentos e espaços meus que tendem da trivialidade à banalidade. Noutro está o meu lado humano, artista e bailarino que necessita degustar o que o presente tem a me oferecer e acrescentar. Uma dualidade instigante onde a própria experiência fresca é a mesma que cria os pré-conceitos do amanhã.

Yiuki Doi

* Trecho retirado do capítulo "Sapiência é o conhecimento de causas" do livro Metafísica II de Aristóteles